O fim do nosso amado verão aproxima-se de mão dada com o regresso à rotina que nos cauteriza a motivação. A reentré e as centenas de emails à nossa espera, a escola/creche e as suas reuniões, o trânsito de geração espontânea, a correria urbana e a falta de paciência coletiva para as necessidades dos outros. Os outros que também têm centenas de emails à sua espera e filhos a regressar à escola; os outros do carro ao lado também mergulhados no trânsito, igualmente acelerados e com falta de paciência.
Nesta transição após o que é a época enviada por Deus para trazer descanso ao que lavoura, há uma sede inerente que (julgo) passa despercebida: a retoma da produtividade ou “o deixar de ser mandrião” e voltar à labuta.
Mas este regresso à realidade, depois de um sonho que vivemos durante 15 dias em Benidorm, é uma farsa inventada por quem acredita que a sua vida marcha ao ritmo da sua produtividade. Por outro lado também existem dizeres como “A produtividade é uma prisão, em que os vis capitalistas de charuto na boca nos chicoteiam por mais horas de trabalho e miséria de espírito!”.
Será que não nos aprisionamos a nós próprios à ideia de que somos apenas produtivos no emprego? Acho que nos habituámos a medir o nosso valor por aquilo que fazemos fora de casa: enfrentamos as intempéries urbanas, dedicamos 8/9h do nosso tempo para merecermos um salário. (Outra miragem que me fascina: a ideia de merecer um salário…enfim, conversas para outras alturas)
Mas onde fica o tempo que passamos a cuidar de nós e dos outros? E as coisas que aprendemos sem certificado? E os hobbies que não servem para nada? E o descanso? E aquele domingo inútil em que, aparentemente, não fizemos coisa nenhuma?
A produtividade só existe num emprego?
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Não. Próximo capítulo.
Quando foi que confundimos produtividade com trabalho?
Quando associamos produtividade apenas a uma atividade laboral, penso que caímos numa emboscada. Um trabalho/emprego é importante para o espírito: enobrece-nos, torna-nos úteis, desenvoltos e participativos na vida coletiva. E, defendo, que deverá ser uma parte da nossa vida que merece muita consideração e estratégia.
Naturalmente que há muitos de nós cujo trabalho não pesa assim tanto na vida – porque é indiferente à sua vocação (muito entre aspas, qualquer coisa serve), porque se adapta, porque é aventureiro, porque 1001 coisas. Sabes aquela máxima de “faz o que gostas e nunca trabalharás um dia na vida”? Eu penso muito sobre isto. E esta simples frase traz tanto pano…:
- O que é então trabalhar?
- Um trabalho é inerentemente mau para o espírito e saúde?
- Trabalhar significa apenas ganhar um salário?
- Fazer algo que gostamos não pode ser um trabalho?
- O trabalho afinal pode ser algo que gostamos?
- Fazer algo que gostamos significa que nunca existirá frustração, cansaço ou aborrecimento?
Ok…já me afastei do tópico.
O que acontece quando no vemos apenas produtivos quando trabalhamos?
Circundamos a nossa vida e o nosso valor apenas ao que fazemos – seja por dinheiro, por reputação, por vaidade, por obsessão, etc. E pior: quando temos que ceder à biologia, i.e., à necessidade de descansar, acolhemos uma data de sentimentos autodestrutivos (“Seja muito bem-vinda, Srª Culpa. Cafézinho? Cheio?”).
“Sara, então o segredo é abordar a questão dos sentimentos autodestrutivos? Tenho que mandar embora a culpa para poder continuar a ser produtivo?”
Ora bem, se é segredo ou não, não sei. Mas acredito que não é essa a abordagem a tomar.
A questão não é fazer contingências ao que a produtividade nos traz. É esclarecer o que é ser produtivo; é desmistificar a produtividade. É alargar o conceito de produtividade para lá do emprego e, sobretudo, para lá da ideia de atividade.
Produtividade também é ócio. Parar ou “não fazer nada”, fazem parte do ser produtivo. Um resultado de produção também depende do equilíbrio entre fazer e parar, entre esforço e recuperação, entre aquilo que damos e aquilo que precisamos de receber.
O que fazemos quando não estamos a trabalhar?
Porque é que nos esquecemos, continuamente, de que a produtividade também existe num lugar muito especial entre trabalhar e “não fazer nada”?
Pode parecer uma lembrança muito vaga, mas existe um lugar onde todo o resto da nossa vida acontece. Um lugar onde vivemos realmente: onde cuidamos de nós, onde cuidamos dos nossos filhos, da nossa família. Onde cozinhamos, onde fazemos compras. Onde vemos televisão, onde conversamos, onde nos encontramos com amigos. Onde pintamos, onde lemos, onde ouvimos música.
É um lugar mágico porque parece um mito. Desvalorizamos tanto este lugar que se tornou um rumor. “Vida própria? O que é isso?”
- Porque é que não somos produtivos quando penduramos um quadro?
- Porque é que não somos produtivos quando fazemos uma caminhada?
- Porque é que não somos produtivos quando dedicamos uma tarde de domingo a dormitar?
- Porque é que não somos produtivos quando fazemos ponto cruz’?
Porque é que nada disto conta para o nosso currículo interior?
Não que a produtividade no seio profissional seja estereotipadamente um ataque à alma: é a nossa fonte de rendimento, é o local onde passamos a maior parte do nosso tempo. E, felizmente, há pessoas que encontram plena realização no que fazem. Mas somos apenas feitos do nosso trabalho? Existimos apenas no emprego?
Costumo dizer muitas vezes que existe uma Sara no emprego e outra em casa. Um autêntico efeito Clark Kent aquando da chegada ao lar: dispo a roupa, tiro os óculos e surge um super-herói de calções, chinelos e mola no cabelo, pronto a refastelar-se no sofá. E é nessa personagem onde cada vez mais me refugio e recupero. Não só nos calções e no sofá, mas também nos ensaios de coro, nas pinturas por números, mais recentemente nas séries no canal VinTv, nos puzzles com a minha filha e, confesso, nos jogos de simulação de pastelaria no meu telemóvel.
E é, maioritariamente, nessas atividades tão anónimas onde encontro a Sara divinamente entretida. Meia volta, o aparafusar de um cabide à parede ou a recuperação de um móvel antigo, fazem as delícias de uma apaixonada (embora nada talentosa) pela bricolage.
O trabalho que ninguém vê (nem nós mesmos)
Poderia ter resumido este relambório numa expressão prática como “tenta encontra algo que te apaixone”. Mas isto não é um exercício de “Onde está o Wally?”. Porque o interessante aqui não é encontrar o objeto: é percorrer as páginas e descobrir centenas de outras personagens. (E isto não é sobre livros.)
Ser produtivo não se resume a relatórios dos RH ou a competências curriculares. Também não se resume a quantos livros lemos no ano, quantos km corremos, nem quantos museus riscamos na caderneta cultural. Mas o mais importante é que nem tudo precisa de ser produtivo.
Existe um lugar onde nos sentimos incognitamente preenchidos; um lugar onde nos realizamos através do serviço a alguém, incluindo a nós próprios; um lugar onde materializamos as nossas vontades, desejos e até sonhos. É um lugar de liberdade onde finalmente percebemos que nem tudo aquilo que fazemos precisa de produzir alguma coisa. Talvez baste vivê-la…
Esquecemo-nos, demasiadas vezes, que existem trabalhos que não constam numa folha de salários. Esquecemo-nos ainda e também que a produtividade não se mede apenas nos créditos de formação, nas pós-graduações, nos números de ginásio, ou nos rácios de tempo/esforço.
A as atividades que nos dignificam e que nos fortalecem são também, e de igual forma, as que nos trazem descanso, diversão e (arrisco-me) até alguma inutilidade.
Obrigada por estares desse lado,
Sara – Slow Living Portugal





