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Slow Love: Amar com tempo num mundo com pressa

Ora bem…este tema é especialmente delicado e demorei algum tempo para falar sobre ele.

Para começar, este artigo não vai ser uma enxurrada de orientações para desacelerar com os nossos parceiros. Viver uma relação amorosa sob valores slow, não a torna automaticamente mais fácil ou mais prazerosa. A raça humana passou os seus últimos milhares de anos a tentar resolver o “mistério para relações felizes” sem sucesso e, com certeza, não serei eu a desvendar o mito.


O que é Slow Love?

O conceito de Slow Love surge como uma extensão natural do movimento slow, mas não pressupõe um novo modelo de relação, nem vem resgatar ideias antigas sobre o amor. É, acima de tudo, uma reflexão sobre o impacto da cultura da pressa nas relações amorosas e conjugais.

Slow Love define-se como uma filosofia de relações amorosas que enfatiza a construção gradual de relações românticas e conscientes, em vez de se precipitar num compromisso intenso e precoce.

  • Ritmo gradual: os marcos físicos e emocionais da relação (como sexo, viver em conjunto, conhecer a família) são distribuídos ao longo do tempo;
  • Amizade: foco em construir laços profundos com o parceiro, em vez de se deixar consumir pela energia da nova relação;
  • Estabilidade: procura pela sustentabilidade da relação ao longo do tempo, criando confiança e compatibilidade e resultando em parcerias mais seguras e menos voláteis.
  • Manter a independência: garantir que a vida, os amigos e a rotina não desaparecem com o parceiro, evitando escolhas entre a vida antes e pós relação.

O panorama atual das relações: urgência, tecnologia e exaustão

As relações amorosas não existem num vácuo – elas são profundamente influenciadas pelo contexto social, económico e tecnológico em que vivemos. Numa era de culto do trabalho e da produtividade, da permanente conexão tecnológica, do peso da informação globalizada e os problemas económicos e políticos, vivemos numa sensação de constante adaptação e fuga.

Queremos sentir rapidamente, decidir rapidamente, avançar rapidamente. E, se não funcionar, seguir em frente com a mesma velocidade.

O consumo instalou-se não só no mundo físico como também nas relações. Como se ainda não soubéssemos (mas sabemos), amar exige disponibilidade interna que o nosso quotidiano, marcado por excesso de estímulos e pouco silêncio, não está a permitir disponibilizar.

“Amar devagar” encontra-se num campeonato difícil – compete contra o cansaço, a distração e a sobrecarga mental.


As (ir)realidades virtuais: amor no digital

Vou começar pelas partes boas da tecnologia que é para não achares que estou sempre a malhar na coitada.

A tecnologia trouxe benefícios reais às relações amorosas — e ignorá-los seria desonesto. As apps de encontros aproximaram pessoas que dificilmente se cruzariam noutros contextos. As redes sociais arrefecem tabus e conversas difíceis, e oferecem espaços de partilha. (e vou mais longe) Até certos conteúdos eróticos por essa internet fora tiveram o mérito de tirar a curiosidade e a solidão sexuais da sombra.

O problema começou quando estas ferramentas deixaram de servir a relação e passaram a substituí-la.

  • A pornografia construiu expectativas irreais sobre desejo e intimidade;
  • As aplicações de encontros promovem uma lógica de substituição constante, onde a próxima opção está sempre a um deslizar de distância;
  • As redes sociais amplificam relações altamente performativas, editadas e estetizadas, que deturpam um quotidiano real.

O problema não está nas plataformas em si, mas na forma como começaram a substituir a experiência emocional direta. A questão não passa por rejeitar a tecnologia mas antes analisar os resultados manifestos que observamos agora e agir em conformidade.


O amor (nem sempre) é lindo: entropia e resiliência emocional

Não quero acreditar que exista um consenso cultural de que uma relação saudável é, por definição, isenta de fricção. Mas observa-se muita manifestação superficial do “não posso demorar-me onde não me sinto bem”. Em geral, concordo com esta posição, por outro lado, penso que pode alimentar um princípio utópico de que haverá sempre uma relação melhor para estar. Ou pior, não deverá existir relacionamentos com negatividade.

Como em tudo na vida, as relações amorosas estão sujeitas à entropia natural: desgaste, fases de menor proximidade, conflitos mal resolvidos, desencontros.

Relações profundas exigem resiliência emocional e mental. Exigem capacidade de negociação, de ajuste de expectativas, de aprender a gerir frustração, de comunicação, etc. Com uma ressalva essencial: nem todas as relações têm de dar certo. Permanência a qualquer custo pode ser um mau negócio para todos os envolvidos.

O esperar que as relações sejam mais fáceis ou melhores porque não existem gargalos, poderá estar na raiz de muitos desequilíbrios em parceria. Vai ser sempre desafiante (não automaticamente difícil), vai exigir trabalho, nem sempre vai valer a pena… mas não há nada (repete quantas vezes forem necessárias), nada nesta vida que não exija trabalho. Não existem atalhos ou fórmulas mágicas.


O papel da comunidade na manutenção das relações

Existe um fator muitas vezes ignorado quando falamos de relações amorosas: a comunidade.

Parcerias excessivamente isoladas tendem a amplificar os seus próprios problemas. Quando tudo é vivido apenas a dois, qualquer conflito parece definitivo. Ter uma vida social minimamente ativa — relacionar-se com outros casais, manter amizades, sair da bolha do quotidiano — ajuda a relativizar.

Observar dificuldades semelhantes noutras relações cria perspetiva. Reduz a sensação de falhanço individual e desmonta narrativas internas como “a minha relação é a pior” ou “o meu parceiro é o problema”.

Relações não sobrevivem apenas a dois. Sobrevivem melhor quando não vivem fechadas sobre si mesmas e quando encontram apoio e semelhança nos pares.


Então, como podemos abrandar o amor?

Podemos, devemos…mas também não serei eu dar a resposta. 1º – não a tenho, 2º – não tenho a certificação para tal.

Mas se tivesse que sugerir algo, eu diria “(Re)encontrar a simplicidade”.

Observa-se muita associação do sucesso das relações a grandes marcos rápidos: pedidos de casamento, filhos, casas compradas, anúncios públicos. Como se o amor só avançasse quando algo visível acontece. Não que não sejam momentos importantes da cronologia amorosa – testemunhos do compromisso entre os parceiros – mas por vezes geram pressa entre aqueles que ainda não caminharam juntos o suficiente.

Nesse processo, esquecemo-nos do impacto dos gestos simples:

  • atenção diária
  • escuta ativa
  • consistência
  • cuidado repetido
  • aprendizagem (a sacana da aprendizagem!)

Refletir sobre Slow Love pode ser uma forma de ajustar expectativas e a abandonar comparações — especialmente com relações altamente performativas que vemos todos os dias nas redes sociais. Comparar bastidores com vitrines é uma receita segura para a frustração.

O amor raramente se transforma num grande momento – em boa verdade, é muito menos espetacular do que se pinta nos filmes. O amor transforma-se na repetição silenciosa do cuidado – é lento, é quieto, mas quando damos por ela o espetáculo acontece cá dentro onde ninguém consegue colocar uma medida.


Que encontres sempre um amor que te abrande, mas que ao mesmo tempo te inquiete.

Obrigada por estares desse lado,

Sara – Slow Living Portugal

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