A minha perspetiva sobre o Revivalismo Analógico, Movimento Analógico ou, simplesmente, Analog.

Na semana passada escrevi sobre o que é o Revivalismo Analógico. Tem sido estimulante ler as manifestações de outros bloggers/utilizadores por essa internet fora. Acompanhar este tema tem ainda mexido com alguns bichinhos cá dentro.
E desta feita, aqui vai a minha honesta opinião sobre o assunto que, infelizmente (e mais uma vez), está a polarizar as redes.
Tudo o que lerás daqui para baixo será apenas e só a minha leitura e opinião.
Modelo Cultural dos Tempos Modernos
Pratos limpos para começar: eu sou uma entusiasta de tecnologia. Espanta-me, fascina-me, surpreende-me, cativa-me. Mas da mesma forma que gosto de comer McDonald’s e me fascina o modelo de negócio e a história da marca, reconheço o lado mau da coisa.
Aprecio boas experiências de utilizador, de plataformas bem desenhadas, de serviços que funcionam. A tecnologia resolveu problemas legítimos e vai continuar a fazê-lo. O problema não é a tecnologia e as plataformas digitais em si.
O problema é o modelo cultural que se construiu à volta.
Conseguimos construir uma sociedade de consumo em que quase tudo funciona por conexão e utilização acumulada. Música, filmes, séries, livros, jornais, software. Pagamos mensalmente para ter acesso (ainda assim somos sujeitos a anúncios) e num dispositivo com dezenas e dezenas de aplicações a notificarem. Apesar do investimento, nada é nosso.
Pagamos para ter acesso, não para simplesmente ter. Esta distinção, aparentemente subtil, pode ter mais peso ético do que se perceciona.
A cultura em regime de empréstimo
Não sou totalmente a favor da ideologia do desapego. Possuir algo não é uma invenção social humana, é uma manifestação da nossa biologia. O territorialismo nos animais é a confirmação que a Natureza nos deu sentido de posse. E, como tal, ser proprietário é algo que traz ordem social.
Mas já António Silva dizia, em O Leão da Estrela, “Hoje nada é nosso”.
- Quando comprávamos um disco, ele ficava connosco.
- Quando comprávamos um livro, ele ia para a estante.
- Quando comprávamos um jornal, ele acabava no porta-revistas.
Hoje, pagamos e nada fica.
(“Ai Sara, e para quê tanta necessidade de ter, ter, ter, ter? Desapega-te!”)
O problema não é o apego material, é o poder de decisão que não tenho:
- Se cancelar a subscrição, a biblioteca desaparece.
- Se um título sai do catálogo, deixou de existir.
- Se a plataforma muda as regras, adapto-me s ou perco o acesso.
Mais uma vez, não se trata de posse fetichista. A ideia de termos acesso a bibliotecas infinitas de cultura, é um desenvolvimento cultural fantástico. E além disso, ainda existem bibliotecas gratuitas como o Youtube que nos oferecem horas e horas de entretenimento e história. Mas o cenário de que a cultura tomou um lugar de aluguer emocional transitório torna o cenário um pouco triste e superficial.
Excesso vs Experiência

Sempre que utilizo uma plataforma de streaming (e vem à cabeça 1 em particular que apesar de pagar continuo a ver anúncios) sinto que há um loop constante de conteúdo: autoplay, recomendações constantes, notificações. E, não querendo mergulhar demasiado no lado menos simpático da coisa, considero uma forma de estimulação intrusiva.
Não considero que o infinito no acesso ultrapasse a relação (profunda ou não) que a cultura promove. Saltamos de álbum em álbum sem ouvir um inteiro, começamos séries que nunca acabamos, guardamos artigos para “ler depois”…
Com certeza que te lembras de comprar um álbum em CD e abrir a caixa, folhear o booklet e – se aquele álbum era especial para ti – pensar que tinhas uma obra de arte nas mãos. E era! Um álbum era pensado para ter uma lógica sequencial, reunia um conjunto de canções que tinha um elo de ligação e suporte físico dele era parte essencial do critério artístico.
Parece-me que caminhamos todos para uma realidade que compete constantemente pela nossa atenção. Pouca coisa assenta e aceita o silêncio.
La Résistance Analogique

Não, não vejo como o analógico venha de repente substituir as estruturas digitais. Não será possível. E isso é maravilhoso!
O que tenho assistido nas últimas semanas com a entrada de 2026 e o revivalismo analógico a reboque, é a prova de que o cérebro coletivo está tão fragilizado que qualquer movimento contracultura se torna um potencial totalitarismo social. Ou é tudo ou nada.
“Eu não vou deixar de usar o meu Netflix e o meu Spotify só porque meia dúzia de fundamentalistas de repente se viraram para o analógico!”
“Eu vou já comprar um leitor de vinis porque isto é o que me vai permitir ser mais consciente e presente!”
“O analógico vai afastar as comunidades e fragmentar o mercado cultural!”
“A partir de hoje só vou ver DVD’s que conseguir comprar nas feiras da ladra!”
O revivalismo analógico, a meu ver, não é nada mais que um manifesto de que é necessária alguma…ALGUMA…calibragem. Ouço este movimento como uma vontade de equilibrar um sistema enraizado e monopolizado.
E ele não está a (re)surgir por mera nostalgia (se bem que ela está lá). Penso que está a tentar oferecer algo que o digital perdeu: limites. Um disco/CD começa, acaba e fica em silêncio. Um livro não sugere outras leituras a meio, não interrompe e não lhe acaba a bateria.
Se num mundo em constante conexão – online, on, on, ON, ON – conseguirmos recuperar alguma agência sobre o que e quando queremos fazer, então só aplaudo de pé quem se lembrou de partilhar, pela primeira vez, “Estou farto disto. #offline #offsocial”.
Talvez por tudo isto os meus rituais não tecnológicos me custem tanto no início.
Não porque não goste deles — mas porque o meu cérebro já foi treinado para um mundo onde tudo exige ligação. E custa pegar num livro, custa abrir uma caixa de puzzles, custa inventar um serão em que não ligue o Disney+ e ali termine o meu dia.
Chego a 2026 com a certeza de que há lugar para o digital mas com uma simpatia crescente pelo entretenimento “difícil” para estes tempos modernos. (Quem diz entretenimento, diz outra coisa qualquer). E até já tenho o meu objeto analógico do ano: uma agenda gigante para testar uma alternativa de organização para o meu cérebro.
Se encontras tranquilidade num binge watching ao fim de um dia merdoso de trabalho, ou se só encontras motivação para arrumar a casa na companhia do Spotify, por favor, usa e abusa da maravilha da tecnologia. Se encontras conforto em ouvir discos de vinil, ou se encontras clareza em usar um dumb phone sem wi-fi, usa e abusa da maravilha da desconexão.
Equilíbrio, sempre equilíbrio.
Obrigada por estares desse lado,
Sara – Slow Living Portugal





