Revivalismo Analógico: Dumb phones, rádios, leitores de CD, câmaras fotográficas e livros físicos voltaram a aparecer em conversas que não são apenas do universo slow living. Tem vindo a ganhar força o regresso de tecnologias consideradas ultrapassadas, deixando de lado a nostalgia estética, para se tornar numa afirmação cultural na era da IA e da saturação digital.
Este movimento — frequentemente designado de analog revival — não nasceu de uma rejeição total do digital, mas o que parece ser uma revisão profunda da forma como a tecnologia ocupa o nosso quotidiano. E a pergunta não se centra no “não quero utilizar tecnologia” mas no “como quero utilizar a tecnologia”.
O que é o Revivalismo Analógico ou Analog Revival?

O analog revival refere-se ao interesse crescente por tecnologias e objetos que:
- se limitam a uma função específica;
- não competem constantemente pela atenção do utilizador;
- não dependem permanentemente de ligação à internet;
- operam a um ritmo previsível e controlado.
A premissa é que a tecnologia desempenha um papel específico, devolvendo o total controlo ao utilizador de a manipular sem a sua atenção ser hiper-estimulada e dividida.
Então, estamos perante um revivalismo de objetos tecnológicos como:
- telemóveis simples, sem feeds ou aplicações;
- rádios e leitores de música dedicados;
- câmaras fotográficas (digitais ou analógicas);
- livros físicos e escrita manual;
- tecnologia doméstica com uma só função.
Parte, acima de tudo, da sensação de perda de controlo sobre a atenção. Com isto, a malta parece estar cada vez mais interessada em usar um leitor de CDs só para ouvir música, ou ver um filme sem anúncios, ou atualizar a sua agenda sem que receba 5 notificações.
Uma tendência ou um manifesto?
O regresso ao analógico está a surgir em múltiplos contextos:
- cultura pop e estética retro;
- lifestyle e bem‑estar;
- tecnologia e design;
- marketing e branding;
- práticas criativas e educativas.
E a questão que se coloca aqui é: será mais uma tendência das lentes das redes sociais ou uma vontade profunda de inverter o impacto da tecnologia na nossa vida? Será que é só mais uma onda retro de artigos vintage ou há gerações que procuram uma vivência mais orgânica, saudável e consciente?
Atualmente, estamos a testemunhar variadíssimas manifestações de:
- fadiga digital acumulada;
- saturação da economia da atenção;
- perda de prazer em experiências fragmentadas;
- desejo por atividades com início, meio e fim;
- necessidade de recuperar controlo sobre foco e tempo.
Estas experiências são cada vez mais expressas por utilizadores de redes sociais e outras plataformas de conteúdo digital, pelo que digital burnout é bem real.
O que pode mudar na nossa relação com a tecnologia?
A tecnologia poderá deixar de ser apenas sinónimo de eficiência sem critério e passar a ser avaliada pelo impacto que tem no ritmo diário.
Este movimento aponta para pequenas mudanças:
- menos dispositivos que fazem tudo;
- menos tempos online;
- mais ferramentas com limites claros;
- mais intenção no uso;
- menos automatismo.
Mais do que um regresso nostálgico, este movimento aponta para uma mudança na forma como avaliamos a tecnologia. O valor deixa de estar apenas na eficiência e passa a estar no impacto que cada ferramenta tem nas nossas funções emocionais e cognitivas. Num mundo saturado de estímulos, a tecnologia que nos impele a mais uso e atenção começa a ser questionada em várias frentes.
No entanto, a dimensão tecnológica não é um alvo a abater nem a raiz de todos os males que se abatem em nós. Um dumb phone não cura burnout e um disco de vinil não resolve ansiedade sistémica. Nesse sentido, é essencial não atribuir objetos com funções terapêuticas que eles não podem cumprir.
Extrapolação ou Previsão de Riscos
Naturalmente, se uma onda cultural empurra as massas para um determinado comportamento (ainda que saudável, como usar menos o telemóvel), os mercados de consumo irão se adaptar e construir narrativas que caminham ao lado essas tendências. O revivalismo analógico já está previsto nas novas práticas de marketing e branding e na mira dos criadores de novos produtos.
E assim os mercados vão responder com “slow tech” premium, objetos caros com estética retro e marketing de atenção disfarçado de wellness, competindo com um consumo travestido de consciência.
Noutra vertente, algumas comunidades já se expressam negativamente sobre a associação entre slow living e analog revival:
- Impacto cultural + económico criativo – diminuição da visibilidade de pequenos artistas (música, arte, cinema, etc); enfraquecimento de pequenos negócios online.
- Impacto social e relacional – menor acesso a informação; afastamento de comunidades online.
- Impacto material e funcional – acumulação de objetos físicos; degradação da qualidade dos serviços (interferências eletrónicas, degradação física dos equipamentos).
Como qualquer mudança cultural, o regresso ao analógico não é isento de tensões. A possibilidade de desacelerar através da tecnologia continua a ser, em muitos casos, um privilégio. Há também o risco de romantizar o passado, criar expectativas sobre objetos com promessas que não podem cumprir ou transformar escolhas conscientes em mais uma forma de consumo.
As verdadeiras conclusões sobre este movimento são muito subjetivas dada a contracultura que o movimento promove e que dificilmente se manifestará massiva e estruturalmente. Existe uma real vontade de mudar a forma como nos expomos ao uso digital, existem dados reais sobre o impacto deste uso mas existe também uma calibragem social difícil de medir. As ferramentas e plataformas online promovem, na sua essência, conforto e conveniência, comunicação, informação, promoção de talentos, socialização, entre tantos outros benefícios.
Porque 2026 surge como ano de transição
Quando se fala em 2026 como um possível ponto de viragem, não se trata de uma previsão absoluta, mas de uma leitura de sinais:
- maior volume de discurso cultural sobre o tema;
- normalização social de escolhas analógicas;
- perda do carácter “radical” de movimentos mais slow/conscientes.
2026 não será o ano em que todos regressam ao analógico mas talvez se torne no ano em que essa escolha deixa de parecer estranha ou fundamentalista.
Talvez o aspeto mais interessante do analog revival não seja o regresso dos objetos guardados no sótão, mas o resgate do poder de escolha na utilização da tecnologia.
Obrigada por estares desse lado,
Sara – Slow Living Portugal





