Sobre amor, amizade, comunidade e a estranha solidão do mundo moderno
Ora aqui está um tema que demorei a tomar fôlego para escrever sobre ele.
Quando se fala sobre Slow Living, fala-se de rotinas, de agendas mais leves, de casas mais simples, de dias menos cheios. Fala-se muito de como vivemos — e pouco de com quem vivemos.
Não sei como, mas sinto que construímos uma realidade social em que estamos rodeados de pessoas, mensagens, estímulos e contactos, e ainda assim, muitos de nós carregam uma sensação de estarmos, de alguma forma, afastados uns dos outros. Isolados, não diria; mas, com certeza, desconectados.
Não me parece que tenhamos mirrado o nosso coração e de repente a civilização moderna se tenha tornado um Grinch incapaz de amor. No entanto, muito provavelmente encurtamos o espaço para que as relações aconteçam organicamente.
A pressa e a urgência nas relações
A pressa não está a afetar apenas a forma como trabalhamos ou organizamos o dia.
Está a entrar despercebida nas conversas que são interrompidas, nos encontros marcados entre tarefas, nas mensagens respondidas só para despachar.
Não dás por ti a pensar em formas de ser mais eficiente socialmente? Eu tenho a sensação de que por vezes há sempre uma mensagem por responder, uma chamada para devolver, ou um jantar para marcar. Parece-me que estou sempre atrasada na minha organização social e não há ferramenta de time-management que me console.
As relações humanas estão a precisar de um lugar mental e emocional sem objetivo, sem produtividade, sem resultado imediato. E, talvez, seja necessária uma seleção natural do que não pode ser nutrido constantemente – convenhamos que por vezes queremos manter o contacto com pessoas que, em determinadas alturas na vida, simplesmente não têm lugar em nós.
Quando tudo é urgente, as relações passam a ser geridas ao invés de vividas. E aquilo que não cabe na agenda acaba por ser adiado indefinidamente: a mensagem que fica por ler, a chamada que permanecerá perdida, o jantar que nunca irá ser marcado.
A tecnologia não criou o problema mas poderá ter amplificado
Vamos lá ver – eu não sou anti-tecnologia.
A tecnologia não criou a desconexão humana mas teve um papel fulcral na amplificação de um modo de vida já acelerado. Falamos a toda a hora, estamos sempre disponíveis ou online, respondemos no imediato – mas a que custo e com que resultado?
Pessoalmente, tenho dificuldade em lidar com esta sensação de conexão permanente. Não só se torna mentalmente pesada, como cria a ideia de que, a qualquer momento, alguém pode entrar no meu espaço — através de um dispositivo — e exigir, ainda que sem intenção, uma resposta imediata.
Basta uma mensagem aparentemente inofensiva — “Olá, como estás? Passei outro dia por tua casa e lembrei-me de ti. Havemos de combinar alguma coisa. Vamos falando. Abraço.” — para suscitar, em mim, uma sensação de urgência na resposta porque não quero ofender ou magoar a outra pessoa.
Sinto que as ferramentas tecnológicas sociais promoveram esta facilidade de comunicação capaz de galgar os limites da nossa capacidade social.
Relações performativas: amor, amizade e cuidado não são assim tão excitantes
Sabemos que amores escaldantes e amizades aventureiras existem ou numa fase muito específica da nossa vida ou nos filmes. O dia-a-dia das relações é bem mais monótono e previsível do que gostaríamos de declarar. Eu, por outro lado, adoro as minhas relações “idosas”.
Talvez seja eu que esteja cansada desta forma de contar o amor — sempre intensa, sempre visível, sempre extraordinária. Faz-me confusão ver relações transformadas em pequenas narrativas épicas nas redes sociais, como se da vida real se tratasse: momentos escolhidos a dedo, emoções amplificadas, gestos íntimos tornados públicos e acompanhados por uma estética pensada para comover e impressionar o olhar alheio.
As relações que realmente sustentam a vida raramente são espetaculares.
- São repetitivas.
- São imperfeitas.
- São discretas.
Quanto mais envelheço, mais me apercebo que as relações mais profundas não vivem de grandes declarações. Vivem de uma presença consistente que vai criando, ao longo do tempo, um espaço onde não se apressa ninguém a provar seja o que for. Com um cônjuge, com um amigo, com um vizinho ou até mesmo com um desconhecido.
Estarei assim muito errada?
O desaparecimento silencioso da comunidade
Antes mesmo da solidão individual, há algo que se foi desgastando de forma quase invisível: o sentido de comunidade.
Estamos a criar filhos sem apoio, estamos a fragmentar famílias pela distância e a falta de tempo; não conhecemos os vizinhos.
Mais uma vez, não porque o coração do ser humano encolheu mas porque a vida moderna, urbana e globalizada foi ocupando o nosso terreno mental empurrando tudo o que não é “essencial” para fora da rotina — e as relações ficaram muitas vezes nesse lugar de ninguém.
O resultado é uma estranha contradição entre uma autonomia individual hercúlea e um suporte coletivo quase inexistente – quando um e outro se resolvem mutuamente.
Quando a comunidade enfraquece, cada relação passa a carregar mais peso. Espera-se que o parceiro, o amigo ou a família preencham vazios que antes eram sustentados por muitos. E, por vezes, essa expectativa desloca-se ainda mais, sendo projetada em estruturas institucionais — como se pudessem substituir o amparo humano que antes existia no quotidiano.
Talvez parte do cansaço relacional e social venha daí: de esperar que sistemas façam o trabalho que, durante muito tempo, pertenceu à comunidade.
Fala-se muito de relações falhadas, de laços frágeis, de pessoas emocionalmente distantes, e analisamos essas realidades com o olho da psicanálise individual. Mas porque será que não falamos sobre a falta de tempo vivido em conjunto? Sobre o impacto do modelo de vida ocidental na estrutura das relações modernas?
As pessoas não deixaram de saber amar. Elas estão cansadas, ocupadas, dispersas.
Em 20 anos de amizade com algumas pessoas, aprendi que o dia-a-dia é muito duro e muitas vezes nos empurra para o conforto da solidão. Mas também aprendi que mesmo a adiar infinitamente os encontros, quando me junto com amigos de longa data, não sobra tempo sequer para pôr o telemóvel em cima da mesa. Todos os segundos são contados e preenchidos de risadas e conversas antigas.
Em 7 anos de relação com o meu companheiro, criei as melhores imagens dele enquanto víamos televisão no sofá, enquanto nos ríamos na cama e enquanto lavava loiça ao lado dele a temperar um frango.
E talvez seja isso que torna as relações verdadeiramente slow. Se não for, deliciar-me-ei na descoberta.
Obrigada por estares desse lado,
Sara – Slow Living Portugal





