Agarra o teu Guia Prático GRATUITAMENTE

Faz o download gratuito e dá o primeiro passo rumo a uma vida mais leve, consciente e alinhada com o que realmente importa.

Relações Conscientes: A Rede de Apoio

Este mês comecei por falar sobre “Relações Conscientes” em geral, já falei sobre Slow Love e por esta estrada vou continuar. Pois Fevereiro costuma ser o mês do amor romântico, mas numa vida real — aquela que inclui exaustão, dias maus, dúvidas profissionais e crises existenciais às 3h da manhã — o que sustenta uma pessoa não é apenas o amor a dois. É todo um ecossistema humano à sua volta.

Quando se fala em rede de apoio pensamos, muitas vezes, numa rede que é construída para dar resposta a momentos particularmente difíceis – luto, doença, gravidez, parentalidade…. Mas na verdade, esta rede de apoio não deverá ser um recurso emocional e/ou logístico para quando as circunstâncias começam a dar para o torto.

Uma rede de apoio deverá ser uma infraestrutura emocional. Que, ou existe e funciona, ou mais cedo ou mais tarde começam a desabar algumas pedras basilares do nosso bem-estar.


O mito da independência absoluta

Para começar, existe uma bajulação do esforço individual que começa a esbarrar o perigoso. Quantas vezes não nos cruzamos com histórias como “Aquela mulher criou os filhos sozinha – que heroína!”, ou “Aquele homem saía do trabalho e ainda ia cuidar da mãe acamada durante a noite. Isto é de dar valor!”? Mas que atos heroicos são estes? E porque só paramos para admirar quando são feitos a solo?

Estamos a glorificar uma cultura de autonomia total. A narrativa do “eu resolvo sozinho” é vendida como uma inspiração, quando na prática é, muitas vezes, apenas um isolamento silencioso.

Nenhum ser humano está desenhado para funcionar sozinho durante longos períodos. O cérebro social precisa de validação, co-regulação emocional e espelhos externos para manter equilíbrio psicológico.1

Uma pessoa sem rede de apoio não se torna necessariamente mais forte. Torna-se mais resistente ao pedido de ajuda — o que é diferente e potencialmente perigoso. A rede de apoio não se trata de um pedido de ajuda pontual, mas uma estrutura consistente que diminui a sobrecarga no indivíduo.


Família: a base… mas não obrigatoriamente o centro

O papel da família no bem-estar individual é, comprovadamente, uma estrutura base no desenvolvimento de um ser humano. E aporta um conjunto de funções como: segurança, pertença, validação e apoio.

Na prática, estas funções não são incondicionais e a família não se torna automaticamente a nossa rede de suporte. É, sim, o primeiro grupo social, mas não se herda este suporte – constrói-se como qualquer outra relação.

Muitos de nós já vivenciámos, ou presenciou, uma destas situações em família:

  • Não há espaço para discordar sem cortar ligação;
  • A ajuda é cobrada emocionalmente depois;
  • Confunde-se preocupação com controlo;
  • Os limites não são respeitados.

Quando existem este tipo de bloqueios numa família, esta torna-se uma base insegura. E entender que este órgão social é a única fonte de suporte, pode criar culpa e dependência emocional (e até moral).

Uma rede de apoio verdadeiramente sustentável, poderá significar uma expansão além da família. Não obstante, uma família que gradualmente procura se curar, reinventar, adaptar, evoluir, aproximar, será onde o sentido de comunidade irá desenvolver-se de forma saudável.


Amizade: um pilar subestimado da saúde mental

Se a família é a base, a amizade é o reforço que sustenta este edifício emocional.

A amizade é frequentemente tratada como acessório social. É bom tê-la na algibeira, mas dispensável numa agenda cheia. Atenção, não é maligno ter amizades que sobrevivem ao afastamento – uma amizade que se mantém silenciosamente presente, é algo maravilhoso.

Mas diria que os amigos são o único tipo de relação escolhida continuamente. Não há obrigação biológica implícita. Permanecem porque querem permanecer — e isso cria um tipo de segurança único. O que significa que existe um querer muito forte e, onde existe querer, existe ação.

Uma amizade madura cumpre funções psicológicas críticas:

  • Regulação emocional (alguém que nos ajuda a reorganizar internamente);
  • Teste de realidade (alguém que nos devolve perspectiva);
  • Validação sem fusão emocional (alguém que nos conforte sem entrar no drama);
  • Humor nos momentos de colapso interno (alguém que te ilumine o dia).

Estes laços são extremamente importantes e requerem a sua exclusividade. Muitas vezes esperamos que outras relações, como a familiar ou a amorosa, assumam funções que idealmente seriam da amizade. Não é negativo, mas convém perceber a diferença.

Uma mãe, um irmão, um companheiro, uma namorada e um amigo ocupam – e devem ocupar – lugares diferentes na nossa vida. E é exatamente esta diversidade que se procura numa rede de apoio: dividir as funções sociais, distribuir o “peso”.

Qualquer relacionamento melhorará drasticamente quando deixa de ser o único lugar onde uma pessoa respira emocionalmente.


O erro comum: apoio de emergência vs apoio estrutural

“Os amigos são para as ocasiões”, “Os cônjuges servem é para isso mesmo!”, “A família deveria ter lá estado!”

Muitos de nós só ativam relações quando está em crise. O que é absolutamente natural! Já falei neste blog inúmeras vezes sobre o tempo que não temos para viver. No quão abstratos e desconectados percorremos os dias. No entanto, talvez precisemos de refletir na importância de evitar a assistência pontual ou urgente no que toca a suporte.

Não sou naturalmente apologista de que deva existir uma obrigação social, um princípio de manutenção periódica para que as relações permaneçam (acima referencio as amizades silenciosas). Mas existe um mínimo de interação que nos mantém ligados.

A manutenção da rede de apoio não se deve apenas a um princípio de reciprocidade, é um ato de profilaxia emocional. Pequenos contactos regulares podem fazer mais pela nossa saúde mental do que conversas profundas de quando em vez. Mas uma amizade bem nutrida traz profundidade e proximidade que tornam inclusivamente o pedido de ajuda mais rápido e otimizado.


Como podemos construir e nutrir uma rede de apoio?

Está totalmente ao teu alcance construir a tua “aldeia”. Uma rede de suporte pode exigir intenção mas nelas habituam um porquê muito mais profundo do que “não querer morrer sozinho”. Tornamo-nos humanos mais ativos, empáticos, diligentes e saudáveis.

1. Distribuir funções emocionais

Nenhuma pessoa deve ser responsável por tudo: ouvir, aconselhar, distrair, motivar, confrontar e acolher. Cada relação suporta partes diferentes da nossa vida. Ex:

  • Um amigo não substitui a proximidade de um parceiro amoroso;
  • Assim como um parceiro amoroso não substitui os conselhos de um amigo;
  • Um colega de trabalho não substitui um amigo;
  • E um amigo não substitui a proteção de uma mãe/pai;
  • Uma mãe não substitui a experiência de uma avó;
  • E a sabedoria de uma avó não substitui o conhecimento de um médico.

2. Tornar o contacto previsível

Constrói uma agenda informal, mas periódica, de rituais sociais. Cria ritmos previsíveis para construir/nutrir confiança.

  • Café/jantar/almoço mensal com “aquele” grupo de amigos;
  • Chamada semanal com familiares;
  • Conversa do fim de semana com o teu parceiro amoroso;
  • Caminhada ou outro desporto quinzenal com o melhor amigo;

3. Não tenhas medo/vergonha de pedir ajuda

Acredita que sei exatamente o que te passa na cabeça quando precisas de ajuda mas não pedes:

  • “Não quero incomodar as pessoas”, “Não quero que X saiba que estou assim”, “Y vai pensar que estou a exagerar”, “Z só vai dizer-me “‘Eu avisei-te!’“, “W vai atirar-me isto à cara no futuro.”, “Eu sou forte, quero que me vejam sempre assim”.

Ainda hoje luto contra mim mesma, contra todos estes pensamentos como se pedir ajuda fosse um tabu. Não é! Vai por mim!

Não deves nem precisas de pedir ajuda apenas no colapso. Se tens pessoas à tua volta que gostam minimamente de ti, elas vão estender-te a mão. Fala com elas, partilha o que puderes quando a carga ainda é suportável.

4. Ser apoio antes de precisar

Hoje sou eu, amanhã é o próximo. Ter uma rede de apoio é exatamente isso: uma rede com ligações recíprocas. Dentro da tua capacidade, cria também um ambiente propício para que o outro peça ajuda, mesmo antes de ser necessário.

5. Alinhamento de circunstância

Há fases da vida que só são verdadeiramente compreendidas por quem as está a viver ao mesmo tempo.

  • Mães precisam de falar com mães;
  • Pais com pais;
  • Quem está numa jornada de saúde física precisa de encontrar quem também está;
  • Quem cuida de alguém precisa de quem sabe o peso real disso;
  • Quem explora a sua espiritualidade precisa de quem procura o mesmo;

Muitas vezes mantemos uma grande variedade relacional, mas continuamos a sentir que certas partes do quotidiano não encaixam ali. Estarmos próximos de pessoas que partilham das mesmas fases de vida, dá-nos mais validação, conforto e, sim, utilidade prática.

Nada disto invalida ou substitui as relações que não se alinham com as nossas circunstâncias. Pelo contrário, complementa-as. Uma rede de apoio diversificada retira o melhor dos dois mundos: quem nos conhece há anos e quem vive o agora conosco.


A rede de apoio num estilo de vida slow

Slow living vai muito além de reduzir tarefas, beber canecas de chá e fazer yoga. (eu digo isto muitas vezes, já começa a ser mantra). Os valores slow recaem sobre sustentabilidade emocional que nos permita levar uma vida mais simples, leve e consciente.

Uma vida mais calma vai depender muito do suporte mental e emocional que escolhemos construir.

Pessoas com uma rede ativa:

  • Tomam decisões com mais clareza;
  • Recuperam mais rápido de stress;
  • Sentem menos solidão mesmo estando sozinhas;
  • Precisam menos de distrações digitais constantes;

2

Não se trata apenas de conforto mas de uma necessidade de retornar a aquilo que nos torna mais humanos – a necessidade biológica e basilar de estarmos em comunidade.

Se amanhã tiveres um dia muito difícil, quantas pessoas saberiam? E quantas pessoas estariam disponíveis para te apoiar? E em quantas pessoas confiarias para partilhar as tuas dificuldades?

Relações conscientes são feitas de pessoas mas também de tempo e continuidade. Continuidade essa, que por definição, constrói-se devagar.

Obrigada por estares desse lado,

Sara – Slow Living Portugal

1

Beckes, L., & Sbarra, D. (2022). Social baseline theory: State of the science and new directions. Current Opinion in Psychology.

2

Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., & Stephenson, D. (2015). Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: A meta-analytic review. Social Science & Medicine, 71(12), 227–239.

Scroll to Top