
Junho revela ruas vestidas de manjericos, enfeitadas de triângulos coloridos e conversas em mesas de comida simples. É o mês em que Portugal parece lembrar-se de algo que, por vezes, esquecemos durante o resto do ano: festejar em comunidade e em comunhão popular.
Celebramos os santos, os dias longos, as férias que se aproximam e os sabores frescos que aliviam o calor. Imbuídos de espírito de folia e proximidade, juntamo-nos a amigos, família, namorados e (a maior beleza da coisa) desconhecidos. E a celebração torna-se algo que vai muito além da fé nos santos padroeiros.
Celebrar é um ato de viver o presente
Festejar é reconhecer que a vida acontece no momento. Mesmo com as preparações prévias e, admito, alguma ansiedade e correria para os preparativos, uma festa é algo raro que nos obriga a estar no presente. E vivendo num mundo que nos incentiva constantemente a procurar o próximo marco, celebrar é um tónico que nos empurra a viver algo fantástico por apenas um dia.
A efemeridade da celebração é um contrato mágico entre o Homem e o tempo. Durante algumas horas, simplesmente estamos – e estamos intransigentemente contra a má disposição (porque Deus nos livre de estarmos com os ventos de sul num dia de festa!).
Festejos populares e o sentido de comunidade
Os festejos populares ocupam um lugar especial na cultura portuguesa porque representam muito mais do que simples momentos de diversão. Em cada centímetro quadrado deste país, as festas tradicionais sempre funcionaram como pontos de encontro para as comunidades, criando oportunidades para transmitir costumes e fortalecer uma identidade coletiva. Seja nas celebrações dos Santos Populares, nas romarias ou nas festas em honra dos padroeiros locais, existe um elemento comum: a vontade de reunir pessoas em torno da música, da comida, da fé ou da tradição.
Sempre fomos um país marcado durante séculos por uma forte ligação à vida comunitária e os festejos desempenharam um papel importantíssimo na construção de um sentimento de pertença que ainda hoje permanece vivo (felizmente!).
As ruas decoradas, as mesas partilhadas e os encontros entre vizinhos recordam-nos que a cultura não vive apenas nos museus ou nos livros de história, mas sobretudo nos festejos e tradições repetidos de geração em geração. A cultura vive no povo, nas cantigas, nos “dizeres”, nas marchas, nos trajes ou simplesmente na forma correta e verdadeira de abanar um fogareiro.
A prática da celebração
Se os festejos populares nos ensinam alguma coisa, é que celebrar nunca foi apenas uma questão de calendário. Apesar de reconhecer o formigueiro entusiasmante das festas anuais (santos, natal, páscoa, etc.), a verdade é que nem sempre é preciso esperar pelos feriados, grandes conquistas, aniversários e outras datas especiais. Há uma beleza discreta em festejar a pequenez da vida.
Celebrar a vida, celebrar a saúde, celebrar um encontro, o aniversário do gato, o término de um projeto ou simplesmente o facto de termos chegado até ao dia presente…
Encontraremos sempre uma micro festa se assim desejarmos. E muito possivelmente a verdadeira arte de festejar exista num espaço onde reconhecemos o que já acontece, em vez de corrermos atrás do que ainda falta.
Numa era de constantes conflitos, dificuldades, mudanças e medos, celebremos! Festejemos e alegremo-nos na companhia de uns dos outros. Nos Santos, marcham, cantam e fazem banquetes as mais diferentes crenças, cores partidárias, opiniões públicas e demais idiossincrasias – e quão bela seria esta vida se o que mais nos dividiria seria o ponto em que se serve a sardinha?
Obrigada por estares deste lado,
Sara – Slow Living Portugal





